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Sombras nas Chuvas de Outono  

Por Alexandre “Galfaroth” Silveira


A noite se aproxima e uma chuva de outono assola o baronato de Berem, situado ao sul de Lubliana, em Marana. E em meio a forte chuva, Timbeorn e Meritor estão a serviço de lorde Ledalf, responsável pelas terras ao sudeste do baronato.

Há algum tempo orcos estão atacando diversas vilas, vilarejos e fazendas. Eles surgem do nada e desaparecem da mesma forma. Magia, dizem muitos. Mas haveria um mago com tamanho poder para fazer tantos orcos aparecem e desaparecem? O conhecimento de lorde Ledalf disse que não. E por esse motivo deixou a cargo de seus dois mais fiéis soldados descobrir o que realmente está acontecendo nas suas terras e também em várias outras partes do baronato.

Timbeorn se abaixou, apoiando o seu joelho direito no chão, e olhou pensativo em meio a lama formada pela forte chuva. Meritor, que apenas o observava disse:

- Por que está olhando esse monte de lama? Não há nada aí! Estamos encharcados e precisamos encontrar um abrigo, e logo. Nós estamos há horas debaixo dessa chuva.

- Para olhos destreinados pode até parecer uma simples terra lamacenta, mas ela pode nos dar muitas informações sobre o nosso inimigo. - Respondeu com calma Timbeorn, que continuou analisando o terreno a sua volta.

- Eu não vejo nada aí além de lama. - Retrucou Meritor, sem muita paciência.

- Quatro orcos passaram por aqui, estão vestidos com armaduras pesadas, dois deles estavam carregando algo e estão com pressa.

- E como sabe tudo isso?

- Pela profundidade das pegadas. Os orcos tem uma pegada mais funda e grande devido ao seu peso e aos seus pés maiores que os de humanos, estão com armaduras pesadas, o que deixa suas pegadas ainda mais fundas.

- E como sabe que as armaduras que estão tornando as pegadas mais fundas e não algum tipo de peso, como uma mochila?

- Ambas as pegadas dos pés estão assim, o que mostra que o peso está bem balanceado, uma boa armadura faz isso. O que estão carregando os pesos tem as pegadas mais fundas, mas somente do lado direito, de onde estão levando algo, apoiado no ombro. Um deles deve estar ferido, pois às pegadas do seu pé esquerdo está com passadas irregulares, tendo que apoiar o pé direito com mais frequência, ele está mancando. Mas não há sinal de sangue, deve ter sido ferido com algo contundente. Esse não está levando peso, talvez foi poupado de levar algo, para não atrasar a marcha. O outro que não está levando carga provavelmente é o líder, já que não está levando peso, não está ferido e anda mais a frente do grupo, como um líder geralmente faz. E, respondendo a sua pergunta, quando alguém está levando uma mochila com um peso considerável a pegada fica mais funda na parte do calcanhar, quanto maior o peso, mais funda a pegada fica nesse ponto.

- Vamos encontrar um abrigo e descansar. - Disse Timbeorn se levantando.

- Pensei que depois dessas descobertas você soubesse aonde os orcos estão indo.

- Eu não sei exatamente onde eles estão indo, mas tenho uma boa ideia. - Timbeorn pega o seu cantil com vinho, toma um pouco e oferece ao seu companheiro. Ele aceita, toma um bom gole para se aquecer e disse com uma voz um pouco incrédula:

E onde eles estão?

- Em uma área de 4 quilômetros quadrados a partir de onde estamos. - Antes de Meritor fazer mais algum questionamento ele continua. - Eu andei procurando pegadas dos orcos nesta área a alguns dias e todos somem nessa área.

Meritor, ainda confuso, perguntou, logo depois de tomar mais um gole de vinho:

- E como eles podem estar desaparecendo nessa área? Magia?

- Não, muito mais simples do que isso, Meritor.

- E o que seria tão simples assim?

- É o que vamos descobrir amanhã, depois de reabastecermos nossas forças - Timbeorn e Meritor voltam até os cavalos e seguem para a vila de Ardom, onde há uma boa estalagem e não fica muito longe de onde estão.

***

Ardom é uma pequena vila que fica próxima de Nova Arantes, a maior cidade do sudeste do baronato. A estalagem estava praticamente vazia, Timbeorn e Meritor estavam neste momento em um quarto no andar de cima, descansando e comendo depois de um bom banho preparado pela gentil estalajadeira. Meritor, serviu-se de um pedaço de pão e um pouco de queijo, enquanto Timbeorn está deitado em uma aconchegante cama coberta de palha.

Timbeorn? - Disse finalmente, Meritor.

Timbeorn, sai de seus devaneios, respirou fundo e respondeu:

- Eu estava pensando em quem poderia estar liderando esses orcos e com qual finalidade. - E ele voltou-se novamente aos seus devaneios.

Meritor, terminou sua refeição, deitou-se e concluiu. - Talvez possamos achar as respostas, ou parte delas, amanhã. Por isso é melhor fazer a sua refeição e descansar mais um pouco.

- É o que espero.

- Sabe, Timbeorn, eu fiquei impressionado com sua habilidade de seguir trilhas.

- Não fique tão impressionado.

Por quê? - Perguntou Meritor, levantando-se um pouco para poder ouvir melhor a resposta de Timbeorn.

- Porque eu estava usando certos sortilégios que me auxiliaram em minha busca e me ajudaram a interpretar de uma forma mais precisa de quem eram as pegadas.

- Mas eu não ouvi você dizer nenhuma palavra ou fazer qualquer ritual mágico.

- Exatamente. Os gestos e palavras que você se refere para evocar uma magia são realizados de modo a combinar com a habilidade que eu estou usando. Por isso você nem reparou.

- Interessante. - Respondeu Meritor satisfeito com a resposta e voltou a se deitar.

- Bem, vou seguir o seu conselho e comer algo. - Timbeorn se levantou, pegou um pedaço de pão e foi até à janela. A chuva continuava a castigar às terras do baronato e ele continuava a pensar no que o amanhecer os reservava.

***

Usando de suas habilidades em seguir trilhas e com o apoio de seus sortilégios, que aumentava ainda mais os seus talentos, eles encontraram a trilha de quatro orcos e eles estavam levando dois prisioneiros, o que levou Timbeorn e Meritor a seguirem às criaturas para salvar os prisioneiros.

Eles se aproximaram o máximo possível dos orcos e estavam a uma distância segura dos quatro orcos, no alto de uma pequena colina. Os dois prisioneiros eram de origem nobre ao julgar pelas vestimentas que usavam.

Timbeorn estava com seu arco retesado, mas não mirou, apenas sentiu a direção que a flecha deveria tomar e a soltou, deixando-a seguir ao encontro do seu alvo, que logo estava no chão, com uma flecha cravada em seu pescoço. Quando os outros orcos se dão conta do ataque já é deveras tarde. Meritor já atravessava com sua espada um outro orco que também tombou. Uma outra flechada certeira perfura o tronco do orco que levava os prisioneiros, ele vai em busca de sua espada, porém em vão, já que é alvo de mais uma flechada certeira e logo cai, soltando as correntes que prendiam os dois jovens, que se afastam assustados. Meritor, atento ao combate, se vira a tempo de aparar o violento golpe de machado do orco que liderava o grupo. O orco tentou medir forças com Meritor e mostrou as suas presas ao mesmo tempo que rosnou palavras ofensivas em seu idioma gutural. Meritor sabendo que não conseguirá medir força com tal criatura se desvencilhou com um esforço heroico e empurrou seu adversário para longe de si. Timbeorn aproveitou a oportunidade e alvejou o orco com uma flechada precisa, que ficou cravada nas costas da criatura que rosnou tentando ignorar a dor. Meritor avançou para dar um golpe certeiro no coração negro do orco, fazendo-o cair sem vida em meio à chuva de outono.

- Você sabe que eu ia derrotá-lo sozinho, não é mesmo? - Disse Meritor, olhando para Timbeorn que desceu a pequena colina e foi ao encontro dos prisioneiros.

- Sim, mas estamos sem tempo para longos embates - respondeu Timbeorn que cortou as amarras dos prisioneiros.

- Onde os senhores foram capturados? - Perguntou Meritor a um dos jovens capturados.

- Nós fomos capturados na fazenda de meu pai, depois de um ataque dos orcos, pensamos que seríamos mortos, mas um dos orcos, que parecia ser o líder, falou algo em sua língua e então fomos amarrados e obrigados a seguir com esses orcos. - Respondeu o jovem nobre a Meritor.

- Os senhores têm condições de voltar e procurar um local seguro? - Perguntou Timbeorn ao jovem que havia libertado.

- Sim, senhor . Podemos pedir abrigo a um de nossos tios.

- Ótimo, pois temos que prosseguir em nossa missão. Atrás dessa colina estão os nossos cavalos, vocês podem pegar um, eles já estão equipados com rações e são velozes, assim poderão chegar mais rápidos e seguros ao destino de vocês.

- Agradecemos imensamente aos senhores e retribuiremos assim que possível. A propósito eu me chamo Adelmo e meu irmão mais novo se chama Aratar.

- Não será necessária nenhuma retribuição, senhores. Eu me chamo Timbeorn e meu amigo, Meritor. Agora não percam mais tempo e vão.

Sem demora os dois rapazes partem enquanto Timbeorn e Meritor se entreolham.

- Nós dependíamos de algum orco para levar até o seu covil. Passamos a manhã inteira debaixo dessa chuva até achar esse bando, mas como estavam com prisioneiros tínhamos que libertá-los. - Disse então Meritor com as mãos na cintura e cabisbaixo.

- Concordo, mas eu acredito que estamos bem perto, peço um pouco mais de paciência a você, Meritor.

- Tudo bem, eu confio em você.

Não demorou muito para que Timbeorn encontra-se novos vestígios de pegadas de orcos. O suficiente para que pudessem continuar com a missão dada por lorde Ledalf, e levá-los, enfim, a um dos vários esconderijos do inimigo.

***

Um orco caiu quase que silenciosamente em meio a uma poça de lama, com uma flechada certeira em seu pescoço.

- Me ajude a esconder esse orco, Meritor, antes que alguém o veja.

O orco protegia a entrada de um túnel, que poderia até passar despercebido, exceto claro, para alguém com uma boa percepção, ou que já soubesse o que procurar, mas Timbeorn se encaixava em ambos.

Timbeorn e Meritor entraram cautelosamente e de modo furtivo no túnel, ambos já estavam preparados para um eventual confronto. Eles desceram por algum tempo e o túnel estava com diversas infiltrações causadas pelas chuvas de outono, que caíam de forma contínua, e já duravam mais de uma semana.

- Timbeorn, acho que você deve saber muito mais do que me disse até agora, já está na hora de me contar tudo que sabe, não concorda? - Sussurrou Meritor, em meio a descida.

- Concordo, mas antes vamos ver o que há no final do túnel e depois tentar sair vivos daqui. - Sussurrou Timbeorn.

Depois de alguns minutos eles chegaram ao final do túnel, que os levou a um grande e rústico salão que abrigava diversos outros túneis. Três ao norte, dois ao sul, três a oeste, onde eles estavam neste momento. Também dava para ver um corredor ao leste, que estava de frente para eles. O corredor estava mal iluminado, o que não era problema para os orcos, e de lá era possível ouvir barulho de forjarias. Havia um grande movimento de orcos bem armados e dois desses orcos puxava um trols por correntes presas ao seu pescoço.

Timbeorn fez um sinal para Meritor, indicando que eles deveriam voltar. E quando saíram voltaram à pequena colina, onde estava um de seus cavalos.

Timbeorn deitou-se na grama molhada pela longa chuva do dia, que agora estava serena e começa a falar, olhando para o céu nublado e tempestuoso, o que significava que mais chuva viria.

- Essas cavernas estão sendo usadas como uma base para os orcos fazerem os seus ataques às fazendas, vilas e cidades pequenas. Os túneis levam a diversas partes, e alguns tem vários quilómetros, para facilitar os ataques. Acredito que existem orcos que cuidam para que esses túneis não sejam descobertos, camuflando-os e apagando evidências que possam levar a eles, como pegadas. Nessas cavernas há dispensas, forjarias, materiais para escavação, armas, armaduras e celas caso alguém descubra algo ou caso chegue perto demais. Eles devem ter começado a construir essas cavernas no verão ou na primavera. E estão espalhadas pelo baronato inteiro.

- O nosso lorde sabe sobre tudo isso?

- Não, isso que eu acabei de dizer era, até agora, apenas suposições, eu precisava me certificar primeiro. Eu apenas seguia os orcos, mas não consegui chegar perto o suficiente, pois eu era descoberto ou acabava me deparando com alguns orcos. No primeiro encontro com os orcos eu tentei derrotá-los, mas logo notei que eles são mais treinados e mais equipados que um orco convencional.

- Então há alguém por trás disso tudo, que está treinando esses orcos, equipando-os e liderando-os.

Timbeorn apenas fez um aceno positivo com a cabeça e continuou olhando para o céu tempestuoso.

- Tem ideia de quem seja?

- Não, nem mesmo um palpite.

- O que faremos agora?

- Voltamos, relatamos tudo ao nosso lorde, e eu tomarei um belo banho quente, continuarei pensando enquanto aguardo uma decisão do nosso lorde.

- Ele vai querer a sua opinião sobre o que fazer.

- Sim, é por isso que eu continuarei pensando.

***

Logo que lorde Ledalf recebeu a notícia dessa descoberta, feita pelos seus dois valorosos soldados, ele enviou suas tropas ao local e destruiu à caverna, que se mostrou grande e muito bem equipada, enquanto Timbeorn e Meritor procuravam por mais cavernas. Mensageiros foram enviados a outras partes do baronato alertando outros nobres sobre a descoberta.

Os números de ataques reduziram, mas não acabaram. E outra descoberta importante foi realizada e mudaria o curso do baronato. Mas isso é uma outra história.